Daqui de cima

Caravaggio-Michelangelo-Merisi-Narcissus

“(…) Mas tudo no mundo nos devolve nossos traços; e a própria noite nunca é bastante espessa para impedir que nos miremos.” (CIORAN, 2011, p. 84)


Daqui de cima, janela de um apartamento, sexto andar, não compreendo o movimento desses passos superficiais. É segunda-feira, mas, ainda assim, não compreendo. Sei que correm para pontos fixos e têm objetivos. E que fazem promessas e chegam sempre atrasados. Mas não compreendo. Como é que tanto, se nem me conhecem? O mundo – ninguém me disse, sei por observá-lo e ler alguns livros – tem o desenho de minha silhueta. Ainda assim, esses passos, lá embaixo, não sabendo de mim, continuam. E fazem promessas, projetam para os dias da próxima semana, começam como lançadores de dardos, depois acabam alvo. E de mim nem notícia. Mudam de opinião ou rumo sem ouvir palavra qualquer de minha boca. Porque falo e isso já deveria ser suficiente. Quando afirmo, por que não me escutam? Mesmo daqui de cima, janela de um apartamento, sexto andar, por que esse desdém, se o mundo tem os meus traços? Sei que cumprem um papel. Deverei de ser grato a cada um por isso. Sei que fazem o que fazem por mim. Mas, caso não me escutem, como não errar? Li livros, alguns artigos e estou sempre me pondo em dúvida. Meu grande charme. Digo que questiono a mim próprio apenas por falsa elegância. Soa bem.

Aquela mulher – como é que pode, cuspir sem me consultar? Está tudo errado. Tudo vai mal. Os tempos são outros, tenho idade para dizer isso. Por isso, digo: os tempos são outros. Antes me escutavam. Eu era o oráculo desse povo todo. E me dava a pretextos mais ou menos sociais. Contanto que meu nome fulgisse e meus bajuladores me mostrassem os dentes… Nasceram para isso. Também pudera, quem encontrou a verdade tem de ser respeitado, consultado e jamais contrariado. É uma dessas leis da natureza, criada por mim. Quem chegou à claridade da verdade e não cegou, tem direitos. Ora, direitos! No fundo, sei que tudo não passa de temperamento, mas, se revelo, cadê o respeito? Isso não. Há palavras impronunciáveis e não serei eu quem vai cair no disparate de, daqui do sexto andar, insurgir-me. A vida tem dogmas mais imutáveis que a teologia, li num livro. Fica bem assim.

O céu está bonito, posso ver a minha imagem nos contornos das nuvens.


Breno S. Amorim
Petrolina, 25 de dezembro de 2017.

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