Ali, um doente?

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Ele chegou, ouvi sua voz do quarto. Antes de tocar a campainha, perguntou a um vizinho se porventura, fazendo favor, saberia ele informar da presença ou não de alguém na casa. Não escutei a resposta, mas suspeito ter visto o movimento da cabeça do rapaz ou moça, que não sabia. De qualquer sorte – ele falou -, muito obrigado. Um rapazinho fino, elegante no trato. Quase mata um com esse modo de operar. De qualquer sorte… Que palavras bonitas! Anotei uma a uma, um dia poderei repeti-las num momento oportuno. Ou não. Finalmente, ouço o tinir provocado pelo dedo hesitante extra-muro. Conto quarenta e cinco minutos, na esperança de uma desistência. Mas, não. No minuto quarenta e seis, a campainha soa ainda uma vez. É com esforço que me ergo da cama. Dou dois murros na porta e vejo cair a placa com uma frase do Sêneca. Lembro que, dias antes, uma menininha, lendo a mesma frase, perguntou à mãe se ali morava um doente. A frase lhe parecera clara: “Não penses vir a mim para ter proveito. Estás enganado se esperas um auxílio, pois aqui não mora um médico, mas um doente”. Na porta da frente, ainda espero mais alguns minutos. A visita é renitente, não há jeito. Deve ter o que dizer. Deve ter muito o que dizer. E isso é o que me entristece. E me cansa. Deixo o revólver próximo, em lugar estratégico. Nunca se pode saber a serventia de um negócio desse. Ainda mais quando não se tem, como é o caso. Afinal, abro a porta e o que vejo, imediatamente, é um riso exagerado. Mostro dois dentes a contragosto. Pensei que não tinha ninguém… – ele diz -, ao tempo em que me ponho alerta, olhando para o revólver que não tenho. Pois é! – é o que digo, o que direi pelas próximas horas. Ele parece entusiasmado. Algum acontecimento? Vamos esperar que não. Ao sentar, coloca um jornal sobre o colo, e eu começo a ficar preocupado mais do que no início. Pois é! – repito. E então, acompanhando a questão da Argentina? Começo a tremer, pouco a pouco, e disfarço com um bocejo: Argentina? Nem me escuta, quer falar. E não para: Catalunha, Somália, a chuva na Irlanda, a extinção da lagartixa amarela. Vez ou outra, tento interromper. Pergunto pela mulher, os filhos, a vida mesma, o último livro lido, ou se conhece Roy Andersson, Nuri Bilge Ceylan ou Cruzeiro Seixas. Em vão. Quer falar de distâncias e resolver os problemas do mundo daqui de casa. Pois é! Pois é! – vou repetindo, até que lembro do único Dramin que me sobrou. Ofereço-lhe um resto de suco de graviola, mas não digo nada em relação ao remédio que vai misturado. Ele bebe e sorri. Agora, mostro outros quatro dentes. Um bom rapaz, o meu amigo, assim tão mudo.

Breno S. Amorim

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