O homem gentil, meu assassino

Morri jovem, quarenta e um anos incompletos. Era um dia quente e o homem que me matou cedeu a mim o próprio guarda-sol. Naquele tempo – lembro do retrato – conservava uma doçura dessas de puxe do melado da cana. Uma ingenuidade que a todos surpreendia, seus olhos buscando aproximação qualquer entre o ano de meu nascimento e o meu modo de andar distraído. O homem que me matou, gentil como ninguém, cedeu a mim o seu guarda-sol e ficou brilhando sob o astro. Recusei, de imediato. Gentileza, gentileza. Meu lema. A frase de minha vida. Em seguida, o homem que me matou descarregava – sua boca era uma arma, só agora noto – palavras bonitas, alvas, luzidias. Lembro que ceguei. Então ele me disse que não me agoniasse, ficasse com o guarda-sol, tornando-o guia de minhas andanças. Afinal, essas calçadas… – ele disse. Mesmo cego, continuei ingênuo, doce, puro como o corpo dessas mulheres da vida. Por último, o homem que me matou fez questão de me fazer ainda um favor. Faço questão, ele disse. Avisar-me-ia o momento oportuno à travessia, eu, àquela altura, um cego. Pode ir, lembro de ouvi-lo dizer. E então o homem gentil, meu assassino, levou-me à carícia de um pneu de caminhão. Enquanto agonizava, pude escutá-lo uma última vez. Era um pedido de desculpa tão bonito, que acabei por esquecer que morria e que era ele o meu assassino. Neste instante, no entanto, tudo se aclara. Tenho comigo, dependurado, o farol esquerdo do automóvel.

Breno S. Amorim

Petrolina, 03 de outubro de 2017.

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