Sozinho, exercitar o deserto

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“Inventando fingimentos para temperar o seu nada”. (Beckett, Samuel. Companhia e outros textos, p. 52)


Tudo muda. Quase tudo. Aos poucos, lentamente. Veloz, quando em vez. Nem por isso sem vagar. Tudo muda. Não de todo, tudo muda. O mar já não há. Nem seu sal ou espuma. Nem seu sal. A espuma, em meus dedos, uma lembrança. Agora, o deserto. O ermo e o desabitado. Nestas terras, meus pés tocam os mortos soterrados. É possível. Mesmos seus corpos, este pó. Quentura. Tudo muda e sou o suor de um corpo em transe. Delirando. Passa o tempo, gastá-lo com mais o quê? Uma pergunta. Deixa estar. Perdida por entre outras muitas. Que importa isso? Desde o início, aquela mesma estória. Velha. Pisada. O que quero mesmo é dizer. Como cansa! Desde lá – veem o distante? –, esta ladainha. Singrando, singrando, quando o mar era ainda uma realidade intáctil. Como agora este deserto, um pouco menos quente. Arde. Sinto a pele crestar. Sinto. Meus vizinhos, todos aqueles outros figurantes sem nome, já não sei. Levaram o mar consigo? Ao menos o barulho, nunca mais. Agora, não. Amanhã, esperar para ver. Buscar com os ouvidos. Mesmo que silêncio, o que se faz? Tudo assim em quietude, que é que muda? Noves fora nada, zero. Não sei como praticar essa conta e a calculadora, perdida, é possível, nesta transição. Caminhando, pode que eu tropece nela. Vamos esperar que não. Talvez não careça. Talvez. Sozinho, exercitar o deserto. Um exercício. Cansar até vir sono. Querer dizer, ainda agora? Neste deserto? Como mudasse qualquer coisa! Aqui, tudo se aclara. Tudo é muito, então digamos quase. Entremeio. Aqui tudo se aclara quase que por completo. Melhor. Caso não, muda nada. Ou bem pouco. Mas, em sequência. Como ia falando, o deserto é mesmo isto que é todo o resto, apenas dando nas vistas, tapa na cara, exclamando, Agora, sim, percebes? Percebo. Bem provável. Ou não. Uma ilusão, mesmo aqui, conta muito. Faz desenhos inexequíveis de mundos distantes e inúteis. Pessimista, não. Otimista, menos. Entremeio. Porta quase fechada. Por pouco, aberta. Entremeio. Meus vizinhos, nem notícia ou barulho. A mulher que se diz minha mãe, uma morta ou semimorta, acenando sempre ao longe. Nem mulher, aqui. O deserto, que se há de fazer! Mesmo aquela que levara meu nome, um vulto em minha lembrança. A memória, neste lugar, adianta pouco. Ou mesmo nada. Melhor deixar como antes dito, pouco. Adianta pouco. Recordo tiras de retalhos. E juntar, já não posso. Trabalho demasiado, canso logo e caio. Meu corpo sumiu ontem na quentura. Capaz de vir amanhã. Ou venha nunca, talvez. Tudo é possível, neste meio de mundo de impossibilidades. Se falta água, sugo meus próprios líquidos. Como são produzidos, ignoro. Quem tem sede, quer água, pouco se lhe dá a sua origem e causa. Não, mas é preciso refletir. Uma voz diz esse disparate. Refletir, no deserto? Eu riria, se dente houvesse. Eu riria. O homem refletindo ante a morte pensa legar um bem para a humanidade, como humanidade houvesse. Rastros, é o que há e ninguém lhes presta atenção. Deserto. Palavra difícil. Exercício vão. Sem contorno possível. Tudo está morto. E não vou começar com aquilo de que haverá de renascer. Cansado. Trivialidade. Armadilha conhecida e buscada. Lá no fundo, o arrependimento, esquecido logo saia. Cansa. Se deserto, então deserto. Sem qualquer tanto de ânimo. O calor e quentura, isso, sim. Se deserto, então deserto. A miragem não faz desaparecer. O deserto. Nem haveria de. Ora uma chuva. Ora uma alucinação de imagens contornando pomares e outras profusões. E, ainda assim, deserto. A fórmula ainda: se deserto, então deserto. Sem saudade do mar e sereias. Esquecido do nome levado embora. Que é que muda? Um nome, numa infinidade de palavras, o quê? Bem capaz de nada. Nem meus passos deixam rastro. Drapejo. Revoo. Já não sou uma saudade para alguém. Como antes. Bem antes – veem o distante? Não vou repetir tudo. Até porque não falo nem digo palavra. Se bem me lembro, o que eu queria era. Tudo outra vez. Cansa. Melhor não. Ou qualquer coisa. Que é que muda? Que é que muda?

Breno S. Amorim
Petrolina, 11 de setembro de 2017.

(Este texto é um fragmento de uma narrativa maior (de nome Ruídos), ainda em composição.)

 

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