À Virginia Woolf

Os outros seriam os outros, não fôssemos nós. Não fosse esta nossa presença titânica e reluzente, estas nossas palavras-bússola, os outros arriscariam os próprios passos, cairiam por conta própria, e a nós não seria dado contemplar esse espetáculo de mau gosto, em que dois olhos, desconcertados e trêmulos, iluminam quase nada, semi-cerrados, cheios de medo e culpa. Os outros seriam os outros, não fôssemos nós e nossas bocas, pronunciando – ora por tédio, ora por crueldade – quaisquer palavras-chave, como se uma única delas fosse suficiente para decifrar esses mesmos olhos de temor, as horas nas quais um corpo, solitário e triste, agoniza apenas por se acreditar palavra pouca e miúda. Os outros seriam os outros, não fôssemos nós e esta nossa mania de torná-los tugúrio de nossas próprias angústias.

Breno S. Amorim

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