Rememorações terçadas

estação trem de Rajada

“Ninguém te conhece. Não. Porém eu te canto.” (García Lorca, Federico. Alma ausente. 2001, p. 301)

“Se me der vontade de ir embora,
Vida adentro, mundo afora
Meu amor, não vá chorar
Ao ver que o cajueiro anda florando
Saiba que estarei voltando, princesa do meu lugar

(…) Não dances, não dances pelo caminho
Ou não vou-me embora, não…” (Belchior, Princesa de meu lugar)


Já agora, talvez uma mulher. Cabelos longos, cachos nas pontas, fios negros. Como os olhos que, se não muda, compreendia a escuridão daquelas noites distantes. O que dirá? Talvez as mesmas palavras, em tom débil, quase por não querer dizer. Talvez já agora uma mulher com força outra e vontades tantas. Os seus olhos, grandes olhos, ainda hoje nesta minha memória gretada, seu nome rivalizando, vitorioso, com todos os pronunciados por bocas deslembradas. Por lembrar, que esgar desenha nos lábios, agora, que já é noite de vinte e tantos anos havidos? Já agora, talvez uma mulher, caso uma bala perdida não a tenha encontrado ou um carro, em controle pouco, tornado mais escuro o asfalto com a negrura de seus olhos. Seus olhos, quantas já não foram as vezes que repeti essas duas palavras e, ao pronunciá-las, sentia como que uma espessidão de luz que atravessa? Já agora uma mulher e outros nomes por dizer. Distante, distante, uma mulher. A voz com que me chamava, em clamor manso, a voz que pousava sobre escrivaninha e cerrava livros, tampa de caneta, borrando um período sofregamente construído, duas horas e tanta para outras quatro palavras difíceis, paridas ante o arrastado da língua, arauto de dois olhos que anunciavam regresso. Os artistas também se enganam, Giacometti, é o que digo. Desde aqueles dois olhos, é o que digo. Algumas obras ficam prontas, saberia.

Um homem, é possível, tantos foram os anos. Aqueles pés, fustigados pelo chão batido e duro, quantas cidades já não pisaram, paisagens outras, imaginadas por nossos pensamentos em nó, aquelas tardes de alforria? Também nós éramos livres, muito livres, embora quase não suspeitássemos o que esta palavra: liberdade, ensaiava dizer. Talvez por não sabermos nada, nada absolutamente, eram-nos dadas aquelas tardes, distantes, distantes, agora um delírio sem corpo, frio. Aquelas tardes, tarde, aquelas tardes neste instante ausentes, inexequíveis, mesmo um martírio. Porque já não compreendemos a lerdeza das coisas, nossos pés, aqueles pés de cascas duras, em pressa e sem-sentido, caminhando para lugar nenhum com certeza de quem ouviu, só por falar, que é preciso ir, não perguntar. Já agora um homem, talvez, a morte não o tenha levado embora para o nada! Um homem cujo nome não mais sei se devo pronunciar, se ainda esperando volver à vida, em adeus ao entulho da memória. Porque, em verdade, o nome desse homem nunca foi totalmente soterrado. Uma retroescavadeira, sempre em desforma de vento, tocando-me a pele, fazendo encrespar os cabelos de meu corpo. Um homem, talvez, um homem que não queria nada além de ganhar o mundo com as próprias pernas, sem peso de bolsa e de culpa, seguir, seguir, os olhos desaprendidos, por anos e horas de exercícios, da possibilidade do detrás, apenas o adiante, ouço sua voz, Apenas o adiante, para que se não note choro de mãe em soluço nem súplica interrompida de irmã. O regresso se lhe parecia qualquer coisa próxima à morte. Tudo lembrança, mesmo os sulcos na memória, que logo inventa outra impossibilidade e acaba em ruga na fachada do rosto. Quem partiu? Uma pergunta sem pé nem cabeça, não éramos estação e trem. O trilho, esta vida, sempre um novo desencontro. Quantas já não foram as mulheres enganadas, aquelas palavras cortadas em precisa medida para cada intento? A mim, não, a mim não me dizia nada, em silêncio é que conversávamos e, chego a crer, nos entendiamos. É possível, ao menos esta possibilidade em meio a tantas prefixadas palavras de único sentido. Como ele e os seus pés fustigados pelo chão batido e duro, único sentido e direção, adiante, adiante: em meus olhos a imagem de uma mão que não vi se despedir. Quem partiu, que coisa mais besta! No entanto, quem partiu?

Não éramos a estação velha da rua detrás e o trem encalhado por falta de despedidas. Ela não dizia, nunca uma palavra em súplica para que eu a tomasse nos braços e, com o cansaço do único peso que aceitaria, rumasse para o adiante. Nunca um rumor fraco e débil que me fizesse supor – fantasiava em quietude – rogo para o qual já guardava resposta. Quem partiu? Eu falava, Adiante e quem ia era ela? Já agora uma mulher, seus olhos negros, névoa em relembrança há muita detida em adeus não percebido. Porque adiante, sempre caminhando em busca mais de uma palavra do que de uma lonjura, eu desconfiava ser detrás o adiante. Mas já era tarde, alta noite, não podia voltar. O regresso, como me assusta pensar nesse desenho aborrecido. A benção da mãe, suas perguntas, querendo saber por onde o filho dela tinha pisado, seus olhos e o toque dos dedos perscrutando feridas ocultas em corpo vadio e curvo. A vó relendo a lição bíblica, o filho pródigo, qualquer coisa repetida e cansada. A irmã, em espanto, tentando adivinhar em meus olhos os caminhos percorridos, suas delícias e fantasias narradas em jornais, sempre com o atraso de uma semana. Esse quadro não se desenhava com lápis nem tinta pintaria as caras de choro contente, o vapor do café posto ao lado de bolachas de água e sal. Esse quadro, uma palavra: regresso. O adiante, por isso o adiante, que era sempre o mais longe, o mais distante, o reencontro com aqueles olhos negros, não mais no detrás. Quem partiu? Como o homem que abandona província e diz, O mundo é meu, eu também fui em busca de qualquer coisa besta e desconhecida. Mas o homem se cansa, como aquele cansou, e retorna ao início: um barco pequeno, o vento no rosto, o riso ante um peixe morto. Já não podia, tornamo-nos aquele trem – com dinâmica, ao revés – e a lembrança: velha estação que não imprime mais bilhete. Quem partiu? Quantos homens já não conheceram o abismo de seus olhos?, sempre outro em seguida, paciente, na ânsia de abismar-se. Quem partiu?

Por que não torno? Deixar-me ir ao encontro daquelas tardes, uma lembrança? Por que não regresso e beijo o corpo morto, se homem agora não mais? Um ponto haveria – deixe que me engane – em que, nossas direções contrárias, fosse possível reconhecer os vestígios de seus pés em areia umedecida por lágrimas de toda a história e precipitação de pranto póstero. Ele me tomaria nos braços e, com aquele mesmo silêncio de tardes distantes, me diria coisas para as quais não concorreria eu, sua cabeça já outro globo. Que não me venha com contos e causas de lugares remotos! Em sua companhia, todo meu esforço se concentraria em nossa velha província, nos risos de senhoras sem dentes em esconjuros e chistes ante meninos descalços, no cheiro do café a exalar do coador de pano vis-à-vis ao amarelo do sol. Em sua companhia, o adiante se encerraria em revinda e todos os dias representariam um eterno entardecer. Sem noite e lua. Solto no mundo, esclarecido dos vários nomes de mulher, é provável que já tenha apagado essa estória toda, quem sabe invenção minha. E, ao revés de mim, não ande pelos cantos a soluçar, Quem partiu? Pergunta sem pé nem cabeça, um passado não é coisa que se possa estabelecer e tocar. Uma invenção – isto, sim –, querendo espessura onde nada há que desborde faz-de-conta. Faz-de-conta que tarde havia e seus pés de casca dura desenhava qualquer coisa em minha barriga magra, depois me despia a blusa, minha boca cacimba em seu dedão, untando o meu corpo de menina, os bicos de meus seios – quase nada – pouco a pouco despertando, a mãe – os braços escorados na janela da frente – nos sobressaltava com seu grito de ordem, adiando – ela não sabia – para o próximo dia sucedência quase misteriosa. Quem partiu?

Não haverá de se lembrar de mim, meu nome em sua boca, pronúncia impossível. Uma mulher, já agora mulher, seus olhos negros de voragem: ali, todos os segredos da terra. O esconderijo de nosso passado, supliciado por sua incapacidade de lembrar. Não haverá de recordar aquelas tardes, aquelas tardes, meu Deus, agora tão distantes. O barulho do trem, na estação de trás, o que me arranca o sono e faz adiantar: adiante, adiante. Quem partiu? Quantos não hão de ser os homens que, com os próprios pés, já agora sensíveis e fofos, acarinham-na a barriga e veem rebentar as luzes de seu corpo? Houvesse um ponto em que, entre o meu adiante e a rota qualquer de seus pés, fosse-nos dado o tropeço, seria então entardecer e as noites não seriam inconstância entre sono e assombro. A sua voz irrompendo aquele meu velho quarto e os livros, ao diabo todos eles!, as minhas tentativas fracassadas de arranjar um período, ao diabo!, sua voz atravessando a parede que separava as nossas casas, aquela voz em prenúncio de chegada dos olhos negros e grandes. Uma mulher, já agora. Desmemoriada, longe da província, outros nomes que pronunciar, sua boca, cacimba para outros dedos. Quem partiu? Eu dizia, Adiante, adiante, enquanto ela arrumava duas-três sacolas de pano e partia, sem mão em ebulição de despedida, sem pranto e promessa de carta por enviar. Quando a palavra fosse suficiente. Uma mulher, já agora uma mulher, não mais do que memória. Quem partiu? Adiante, adiante.

Breno S. Amorim
Petrolina, 1 de junho de 2017.

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