Câncer

  Ao escutar a palavra câncer, o menino envelhece. Nascem-lhe fios prateados, aos bocados sulcos povoam a pele. O menino envelhece. A palavra ainda sem referente claro, preciso, falto de corpo e obliteração. Ainda assim, o menino envelhece. Suficiente, a pronúncia: Câncer. Não demora muito e o verbo se faz carne para, em seguida, devastá-la. … Continue lendo Câncer

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No princípio, a morte

"(...) E já passou o tempo em que o tempo não contava. O homem de hoje não cultiva mais aquilo que não pode ser abreviado." (Paul Valéry, Les broderies de Marie Monnier) À Laís Morais, que me indicou o ensaio 'O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov', de Walter Benjamin.   Morri com … Continue lendo No princípio, a morte

Lapidarium de uma vida que não foi

  "(...) Mas eu não era um futuro soldado..." (Kafka, Franz.  Carta a meu pai) À Amanda. Possivelmente, este relato poderia não ser exarado, talvez, dissera-me mesmo um amigo, não seja digno de nota. Insignificante, muitíssimo particular, repetido por entre as ruas desta cidade sem praças. É verdade, poucas são as estórias dignas de nota, … Continue lendo Lapidarium de uma vida que não foi

Cidade: Palavra Confusa

‘’A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento.’’ (João do Rio, A Alma Encantadora das Ruas) Enquanto observo as portas e janelas ogivais do Teatro 4 de setembro, sua voz estala em interrogação: – Escreves sobre o quê? Esta construção mantém a fachada original, edificada … Continue lendo Cidade: Palavra Confusa

O Rumor de Um Ausente

Ao meu avô Geuid. Cá, a mesma parede ferida por um prego. Um espelho retangular, o Charlie Chaplin ao centro, sustinha-se no prego deslembrado por vórtices e rodamoinhos. Argamassa, matéria bruta, cobre o rasgo. A parede, aplanada, alumbrando tonalidade distinta, outra – o buraco, apesar, diante dos meus olhos, próximo ao primeiro quarto, espaço da … Continue lendo O Rumor de Um Ausente